Organizadas? Hora de acabar com isso

morumba

Era o ano de 2.008. Libertadores. Tinha ido em todos os jogos até então. Iríamos enfrentar o Fluminense. Lembro-me que poderia ser o Santos antes. Se fosse o Santos, ficaria com certo receio de ir, pela torcida santista, que considerava mais rival que a do Fluminense. Na época morava com meu pai, que lembro me dizer: ‘Ah, torcida do Fluminense, acho que não vai ter problema, vai tranquila’.

Um amigo de SP comprou o ingresso pra mim, afinal não moro em SP. Quando deu 17H, saímos do trabalho, eu e meu marido (na época, noivo), pegamos o ônibus e fomos pra SP. Chegamos lá, após ônibus, ônibus e um taxi, chegamos ao Morumbi. Um congestionamento monstro na Marginal nos fez chegar um pouco atrasados. No jogo anterior, contra o Nacional, chegamos em cima da hora, desta vez chegamos com um pouco de tempo, mas não muito.

Praça do Morumbi lotada. Lá fomos nós em busca do portão de entrada. Muita, muita gente. Mas até aí, só lotação, nada demais. Quem está acostumada a ir em jogos de time grande não se assusta com muita gente fora do estádio. E fomos indo, subindo, pra quase chegar no portão de acesso. Quase.

De repente, uma correria. Gritos. Quando olhamos ali estava a organizada do SP. Parecia um bando de gente atacando um inimigo. Gritos de ‘vai morrer’, ‘mata um, mata cem’, éram vários. Não era meia dúzia. Era um número considerável. Muito maior que de policiais, que assim que viram aquilo, foram também pra cima deles.

Mas detalhe: a organizada estava em confronto com quem? Não tinha a torcida do Fluminense ali. Sabe o que tinha? Torcedores comuns, como eu, meu marido, com a camisa do SP. E era em cima dessas vários torcedores comuns que a organizada foi pra cima. Deu medo. Muito medo.

Meu marido é alto, grande, virou de costas e ‘me escondeu’, fiquei escondida ali entre ele e a grade. Do nosso lado, um pai com filho, o garoto devia ter uns 7 anos e só chorava. O medo e o terror estampado no rosto do garoto. Muita gente correu, chorou, consegui ver gente apanhando.. E os ‘valentes torcedores organizados’, todos fardados com as camisetas da tal organizada lá, distribuindo socos, pontapés em gente que só estava ali pra ver o jogo. E eram muitos! Não eram poucos,  não eram ‘alguns’, não era uma meia dúzia, longe disso. Era um grupo grande, muito grande, extremamente organizado e cujo único objetivo era agredir, violentar, quem estivesse perto.

A polícia lançou bombas e o grupo deu uma parada. Nessa hora conseguimos correr. Isso tudo do lado de fora do estádio. Confesso que entrei tremendo no estádio e pra mim, o jogo perdeu muito do brilho. Do jogo em si, lembro poucos detalhes. Deste evento pré-jogo, me lembro de tudo.

Nunca mais voltei ao Morumbi depois disso. O SPFC disputou outros jogos importantes, final de Sulamericana, eu vi tudo pela TV. Nunca mais voltei ao estádio. Quando li e vi na TV sobre a confusão no último jogo da Libertadores, me lembrei de cada detalhe do que eu passei.

Na época, não houve uma nota sobre isso em qualquer programa esportivo. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. E ao acessar as redes sociais nos últimos dias, a grande maioria indignada com o que a organizada aprontou nesse último jogo, mas ainda li linhas de alguns que defendem as organizadas. E pra estes que esse texto é.

Li os argumentos como ‘ah, tem muito mais gente boa do que bandido’. Ok. Essas pessoas boas tem necessidade de colocar uma camiseta, que não é do clube diga-se bem, e ir em bando, gritando ‘Oooooh…….eu sou, e dou porrada eu dou, e ninguém vai me segurar, nem a PM’. Porque eu nunca vi graça nesse tipo de música pra cantar no estádio. Essas pessoas de bem não podem ir ao estádio como eu ia, como várias pessoas vão? Sentando em qualquer área do estádio, convivendo por 1h30 com pessoas que não conhecem, quem sabe até fazendo amizades ali? Por que essas pessoas de bem tem que ir, em bando, escoltadas pela polícia, cantando hinos de apologia à violência, exaltando muito mais o nome da torcida que do próprio clube?

Em termos de psicologia, podemos colocar aqui o conceito de psicologia das massas. A identidade de grupo, nação, raça ou profissão é tão ou mais forte do que a sua própria identidade pessoal – aquilo que faz de você uma pessoa única, de certa forma. Observa-se isso plenamente nas organizadas. Eles são ‘membros da organizada’. Assim se definem. Muito mais que ‘torcedores do SPFC’. A organizada vem em primeiro lugar. “Porém, pensemos mais em um conglomerado enorme de pessoas, tais pessoas com seus preceitos e com seus princípios individuais, partilhando de uma suposta mesma identidade. A repercussão disso é poderosíssima. A partir de determinadas situações, um individuo pode assumir a postura daquilo que Freud, o pai da psicanálise, denomina como instinto social. Querendo ou não, você e todos aqueles torcedores organizados assumem um comportamento que não necessariamente é aquele que confere todos os dias. É uma forma de promover certos comportamentos peculiares em determinadas situações específicas. Quanto mais pessoas estiverem fazendo a mesma coisa, mais pessoas se juntarão e passarão a fazer a mesma coisa”(1). Ou seja, quanto mais as organizadas estiverem aí, mais pessoas irão se juntar e fazer a mesma coisa.

No meu modo de ver, o clube nada ganha com organizadas. Nada. As organizadas por acaso pagam royalties, ao usar (e vender) camisas, bandeiras, com o escudo e nome do clube? Até onde eu sei, o clube não ganha nada com isso. Mas se você quiser montar uma escolinha e colocar o símbolo do SPFC, você precisa pagar royalties ao clube. Então, por que o tratamento diferenciado?

‘Ah, mas esses vândalos não representam a torcida’. Ah, não? Primeiro, não são meia dúzia. São vários, muitos. Eu vi. Ninguém me contou. E outra, a torcida emitiu uma ‘nota oficial’ há alguns dias. Não está assinada por uma única pessoa. A nota oficial representa o pensamento da torcida, afinal veio em nome dela. Foi uma das coisas mais ridículas que já li, praticamente afirmando que quem saiu mais cedo do estádio não é são-paulino. Eu não sei como esses torcedores vivem, mas até onde eu e muitos outros torcedores vivem, os jogos das 22h complicam quem depende de ônibus e metrô pra chegar em casa, então sair mais cedo do estádio é algo normal. E cada um sai a hora que bem entender do estádio, isso não o classifica como menos torcedor que ninguém.

Os que tacaram o terror na última quarta estavam todos fardados com a camiseta da tal torcida. Atacaram homens, mulheres, distribuíram socos, pontapés, assediaram meninas, basta ler alguns depoimentos. Essas torcidas são as que invadem o CT, chutam carros e ameaçam jogadores. E aí que eu não entendo, se tem tanta gente que condena isso, por que continuam fazendo parte dessa organização? ‘Ah, é pelo amor ao SPFC’. Isso não é amor ao clube. Aliás, o que menos se vê é amor ao CLUBE nas organizadas, se vê o amor PELA organizada, basta ver os hinos, exaltando o nome da torcida, muito mais do que o próprio clube. O maior patrimônio do clube é seu torcedor. E o que a organizada faz? Ataca o próprio torcedor, que esta ali só pra se divertir.

Não tem como dizer que a organizada não afasta o torcedor do estádio. Afasta sim. Afastou a mim, provavelmente aquele pai com o garotinho talvez não tenha voltado mais. E tantos outros, que não vão ao estádio porque a organizada está lá, com hinos de guerra e terror eminente. Tanto que tem escolta da polícia. Famílias deixam muito de ir ao estádio por causa delas.

Não há razão alguma pra organizada existir. Soube ontem que há um vídeo no Youtube no qual um membro da organizada sugere pedir royalties à televisão por mostrar sempre a organizada. É o cúmulo da inversão. Não dá. Organizadas tem que deixar de existir. O clube tem que impedir que se use o símbolo e nome dele nessas associações. Impedir que se entre com camisetas relacionadas à organizada. Chega de financiamento! Nem que seja R$1, não se pode dar dinheiro a eles. Chega de ser ameaçados por eles (isso valendo pra quem trabalha no clube). À medida que essa organização deixar de existir e ser fomentada, à medida que se perceber que não há mais como ir em bando, trajado e cantando hinos de apologia à violência no estádio, à medida que jogadores deixarem de comemorar seu gols dando as costas ao torcedor comum e fazendo símbolos da tal torcida, à medida que tudo isso acabar, elas vão minguar. É um esforço conjunto. Inclusive para tirar as chamadas pessoas de bem disso. Pessoas de bem tem que estar no estádio, tem que voltar ao estádio. E elas não irão, enquanto a preocupação do clube for reservar um lugar para a organizada, reservar ingressos, dar dinheiro a elas, não haver qualquer punição a ninguém… Enquanto que o torcedor comum tem duas opções: ou vai no sacrifício, compra ingresso, é tratado mal e arrisca levar porrada ao final do jogo da organizada, ou fica em casa, longe do estádio. Está na hora do clube valorizar o seu torcedor e não mais a organizada.

Inversão completa de valores. Está na hora das organizadas acabarem. Aliás, já passou da hora.

Thaís C Paradella.

(1) A violência dos grupos, pelo viés de Nathália Costa (Revista O Viés)

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